GP- O
número de presos no Paraná ultrapassa os 28,3 mil. Desses, 9,7 mil
estão em delegacias cumprindo prisão temporária. Em contrapartida, há no
estado apenas 10 defensores públicos e outros 137 assessores jurídicos
que só podem atuar diretamente nas penitenciárias. Isso significa que
cerca de 9,7 mil pessoas presas hoje nas delegacias, se não tiverem
condições de pagar um advogado, não têm a quem recorrer, a não ser a
esses 10 defensores, lotados apenas em Curitiba.
Um
estudo da Associação Nacional dos Defensores Públicos (Anadep) e do
Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea) divulgado em março aponta que,
levando em consideração a população com renda mensal inferior a três
salários mínimos no Paraná, seriam necessários mais 834 profissionais
para que o órgão funcionasse adequadamente.
Ao que tudo indica nem esse quadro desolador nem a decisão do Supremo
Tribunal Federal (STF) que obriga o estado a implantar a defensoria
pública em até seis meses devem dar fim a essa novela. A
Procuradoria-Geral recorreu da decisão na última sexta-feira com a
justificativa de que o Paraná ultrapassou o limite prudencial da Lei de
Responsabilidade Fiscal com funcionários e, por isso, não possui
recursos para estruturar o órgão, que garante assistência judiciária
gratuita à população de baixa renda.
Mas há críticas a esse argumento. “Se o MP e o TJ cada vez mais
demandam pelo aumento das verbas orçamentárias respectivas, mesmo sendo
órgãos razoavelmente estruturados, imagine a DP que está em fase de
instalação?”, diz a professora da Faculdade de Direito da Universidade
Federal do Paraná Priscilla Placha Sá.
Segundo a defensora-pública geral do estado, Josiane Fruet Lupion, há
uma expectativa prévia de que apenas 87 profissionais devam ser
nomeados até setembro. Até lá, a perspectiva é caótica. “Quando o
delegado recebe uma prisão em flagrante de alguém carente, tem de
informar o defensor em até 24 horas. Recebemos os pedidos, que chegam
por e-mail ou correspondência de todo o estado, e o indivíduo continua
preso, não há o que fazer”, conta.
De acordo com levantamento da defensoria, existem presos provisórios
em delegacias que já deveriam ter sido transferidos para penitenciárias
ou já cumpriram a pena, mas não podem sair porque não têm acesso ao
defensor público. “As lesões aos direitos têm impactos reais e visíveis,
como a superlotação de presídios”, aponta Priscilla.
Outras áreas
Apesar de agrupar a maioria dos atendimentos, não só na área penal a
defensoria pública é fundamental para a população. Conforme Josiane, ao
lado dos crimes estão os casos de família e, depois, o atendimento de
adolescentes infratores e ações cíveis. Mas, sem a estruturação, a
instituição não consegue chegar às comunidades afastadas. “Estão
nascendo e morrendo crianças sem registro em ilhas no litoral, e a
defensoria não consegue chegar lá para dar instruções.”
“A defensoria é essencial porque, em um país absolutamente desigual
como o nosso, em que há uma faixa muito significativa de pessoas pobres e
abaixo da linha da pobreza, é imprescindível que exista uma instituição
que possa demandar sobre os seus direitos”, avalia a professora
Priscilla. “As inúmeras insatisfações populares recentes, reclamando de
saúde, educação, melhoria de transporte público, mostram o papel
importante da defensoria, que é o de assegurar esses direitos no
Judiciário”, aponta o coordenador da Anadep na Região Sul, Rafael
Português.
O SUS na Justiça
Infelizmente, a falta de atenção aos mais pobres não acontece apenas
na esfera estadual. A Defensoria Pública da União (DPU) no estado, que
advogada em favor de famílias de baixa renda em causas em que a União é
parte, como previdenciário, também sofre com a falta de infraestrutura e
de pessoal. Uma visita ao prédio do órgão em Curitiba passa a impressão
de um local que está prestes a desabar. A instituição ocupa seis
andares de um edifício alugado no Centro da capital, que conta com
apenas um elevador sem acesso especial a quem chega de cadeira de rodas.
Justamente o órgão público responsável por propor ações que envolvem
pedidos de auxílio-doença contra o INSS, além de demandas por
tratamentos de saúde não atendidos pela União, tem funcionários
trabalhando em condições precárias. “A necessidade da DPU reflete a
falta ou a insuficiência do próprio serviço público”, explica o
defensor-público chefe, Gustavo de Oliveira Quandt.
A instituição conta com 23 defensores atuando em cinco cidades do
Paraná. É mais que o dobro do quadro da defensoria estadual, mas ainda
falta cobrir 13 municípios com sede da Justiça Federal no estado.
Apesar da demanda crescente, Quandt avalia que a população ainda não
conhece a atuação da DPU de maneira satisfatória. Por isso, um dos
projetos desenvolvidos pela instituição no Paraná é a visita mensal aos
Centros de Referência de Assistência Social para informar a essas
pessoas sobre os direitos que elas têm. “Tentamos descentralizar o
atendimento e divulgar informações, mas, trazendo essas pessoas, não sei
se teremos condições de atendê-las”, avalia.
Há luz no fim do túnel
Dois projetos que tramitam no Congresso Nacional poderiam resolver
pelo menos alguns dos problemas enfrentados pelas defensorias públicas
estaduais e da União. Porém, em âmbito local, a presidente Dilma
Rousseff acabou vetando o projeto que trata da adequação da Lei de
Responsabilidade Fiscal à autonomia administrativa, financeira e
orçamentária das defensorias. A Associação Nacional dos Defensores
Públicos e outras entidades vêm lutando para que o Congresso
derrube o veto presidencial.
No domínio da União, na semana passada, a Câmara dos Deputados
aprovou em primeira discussão o Projeto de Emenda Constitucional que
pretende conferir autonomia administrativa, funcional e financeira à
DPU. “Em médio prazo, acreditamos que muitos dos problemas serão
resolvidos ou amenizados. A autonomia vai conferir mais agilidade
administrativa”, aponta o defensor-público chefe da DPU em Curitiba,
Gustavo de Oliveira Quandt, que é obrigado a ocupar um dos andares do
prédio da instituição com lixo. “Para nos desfazermos de um grampeador
quebrado é um trabalho hercúleo”, diz.
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